Um relato sobre TDAH, processamento sensorial e por que falar de inclusão na escola exige olhar primeiro para quem ensina, acompanha e cuida.
Por Ana Rita de Mattos Marques
Quando falamos em inclusão escolar, quase sempre nosso olhar vai direto para os alunos. E ele precisa ir. Mas a escola também é feita por adultos que ensinam, acompanham, organizam, acolhem e tomam decisões o tempo todo. Entre eles, existem profissionais neurodivergentes e pessoas com sensibilidades sensoriais que vivem a mesma sala de aula por outro ângulo.
Eu sou uma dessas profissionais. Minha experiência não representa todas as pessoas com TDAH ou dificuldades de processamento sensorial, mas foi ela que me fez perceber uma pergunta que ainda aparece pouco nas conversas sobre inclusão: quem cuida das necessidades de quem está ali para ensinar e apoiar?
Foi trabalhando com neurodivergência que comecei a olhar para mim
Quando comecei a trabalhar com crianças neurodivergentes e a estudar mais sobre autismo, neurodesenvolvimento e aprendizagem, meu objetivo era entender melhor os meus alunos para oferecer o melhor para eles. Com o tempo, alguns conteúdos começaram a tocar em experiências que eu reconhecia em mim mesma. Eu lia um artigo e pensava: “Parece comigo”.
Foi em um congresso em São Paulo, durante uma palestra sobre autismo em adultos ministrada pela doutora Elizangila Leite, que senti que precisava ir atrás de respostas. Saí dali com a sensação de que não queria mais apenas chamar certas características de “meu jeitinho”. Iniciei uma investigação sobre mim mesma e, nesse processo, descobri o TDAH e o Transtorno do Processamento Sensorial, o TPS.
O apoio também fez parte desse processo
Desde que minhas dúvidas começaram a surgir, eu tive pessoas ao meu lado me incentivando a buscar respostas. Pessoas da minha vida pessoal e colegas da vida profissional me acolheram, me ouviram e me ajudaram a entender que investigar o meu próprio funcionamento não era exagero.
Esse apoio foi extremamente importante para mim. Talvez, sem ele, eu tivesse demorado muito mais para ir atrás de respostas ou talvez nem tivesse ido. O medo de julgamentos, críticas ou de não ser levada a sério poderia ter me impedido de procurar ajuda e investigar o que estava acontecendo comigo.
Ainda vivemos em uma sociedade que fala muito sobre inclusão, mas que, na prática, continua distante dela em muitos aspectos. Isso pode ser ainda mais difícil quando falamos de adultos vistos como “funcionais”, que trabalham, estudam, cumprem suas responsabilidades e, justamente por isso, podem ter suas necessidades invisibilizadas. Nem sempre quem está conseguindo dar conta está bem. Ter pessoas ao meu lado que não diminuíram minha capacidade e, ao mesmo tempo, me deram espaço e segurança para buscar respostas fez toda a diferença.
A descoberta não mudou quem eu era. Ela mudou a forma como eu conseguia interpretar coisas que já faziam parte da minha vida, como o incômodo com determinados sons, a dificuldade de ignorar estímulos ao redor, a sensação de cabeça cheia e o cansaço depois de ambientes muito barulhentos.
A escola também é um ambiente sensorial para quem trabalha nela
Quem trabalha em uma escola sabe que uma sala de aula raramente tem apenas um som. Há crianças conversando, cadeiras arrastando, materiais caindo, ventilador, vozes no corredor, sinal, movimentação, perguntas simultâneas e mudanças rápidas de atenção. Tudo isso acontece enquanto o profissional precisa ensinar, observar, responder, antecipar situações e continuar tomando decisões.
Para uma pessoa com sensibilidade auditiva, o desafio não é apenas “não gostar de barulho”. Filtrar sons concorrentes e manter a atenção no que realmente importa pode exigir um esforço muito maior, e esse esforço nem sempre é visível para quem está ao lado. Com o tempo, isso pode gerar sobrecarga, cansaço e estresse.
No meu caso, percebi que esse acúmulo de estímulos também afetava a forma como eu reagia em alguns momentos. Às vezes, eu acabava ficando mais impaciente e até descontando esse cansaço nos alunos. Entender de onde vinha essa sobrecarga me ajudou a lidar melhor com ela e, consequentemente, a ser uma profissional melhor. Admitir isso, para mim, não é fraqueza. É amadurecimento.
Atualmente, eu não atuo como professora regente. Trabalho como professora auxiliar, o que faz com que eu precise sustentar uma atenção muito intensa ao aluno que acompanho, mas não apenas a ele. Enquanto estou ao lado do meu aluno, ajudando nas atividades, observando seu comportamento e percebendo suas necessidades, também preciso filtrar todos os outros sons e acontecimentos da sala.
Ao mesmo tempo, mesmo tendo um aluno que acompanho mais de perto, continuo atenta ao restante da turma e a quem mais possa precisar de apoio. Preciso ouvir a professora, observar o que acontece ao redor, responder a diferentes demandas e retomar meu foco depois de interrupções. Para mim, esse exercício constante de selecionar o que merece atenção em meio a tantas vozes, movimentos e estímulos exige muita energia. Eu consigo fazer tudo isso, mas hoje reconheço com muito mais clareza o quanto esse esforço pode ser cansativo.

O cansaço que nem sempre aparece
Um profissional pode continuar trabalhando, conversando, ensinando e resolvendo problemas mesmo já estando sobrecarregado. Por isso, nem sempre os efeitos da sobrecarga sensorial aparecem enquanto ela está acontecendo. Às vezes, eles surgem quando o período termina, quando o ambiente finalmente fica silencioso ou quando já não há mais energia para processar tantos estímulos.
Eu passei muito tempo sem relacionar o cansaço que sentia ao excesso de estímulos. Em dias mais intensos, chego a sentir uma necessidade enorme de silêncio e um cansaço muito intenso. Sons que normalmente seriam toleráveis ficam mais difíceis de suportar, conversas simultâneas cansam e minha cabeça parece continuar cheia mesmo depois de eu sair da escola.
Profissionais também precisam de apoio
Na educação inclusiva, aprendemos a observar barreiras, pensar adaptações e buscar condições para que o aluno participe. Esse mesmo raciocínio pode e deveria ser ampliado para quem trabalha na escola. Olhar para as necessidades dos profissionais não compete com a inclusão do aluno. Pelo contrário, significa reconhecer que uma escola é feita de relações e que todos precisam de condições para exercer bem o seu papel.
Apoio não significa reduzir responsabilidades, diminuir expectativas ou tratar o profissional como incapaz ou fraco. Pode significar coisas simples e muito concretas: ter previsibilidade sempre que possível, organizar demandas com clareza, permitir pequenas pausas em ambientes menos estimulantes, conversar sobre necessidades sensoriais e viabilizar recursos que reduzam o impacto do ruído sem impedir a comunicação e o trabalho.
Nem toda estratégia serve para todas as pessoas. O ponto não é criar uma fórmula. É abrir espaço para que o profissional consiga dizer o que o ajuda, sem que isso seja automaticamente interpretado como falta de preparo, exagero ou fragilidade.
O que me ajuda na prática
No meu cotidiano, organização e previsibilidade fazem diferença. Saber o que precisa acontecer, visualizar as demandas e evitar acumular muitas informações ao mesmo tempo me ajuda a administrar melhor a atenção e a energia. Também aprendi a perceber quando já estou chegando perto do meu limite e a respeitar a necessidade de silêncio depois de períodos muito intensos.
Como a sensibilidade auditiva pesa bastante para mim, também fui buscando formas de diminuir esse impacto. Uma das estratégias que uso em algumas situações são os protetores de ouvido da Nebula. Para mim, ele não serve para me desligar da sala. Eu continuo precisando ouvir, conversar e acompanhar o que está acontecendo. O que ele faz, na minha experiência, é ajudar a deixar alguns sons menos intensos.
Ele não resolve a sobrecarga sozinho e não substitui outras estratégias. É apenas uma ferramenta entre várias que fui conhecendo depois que comecei a entender melhor o meu próprio funcionamento. Para mim, a maior mudança foi deixar de apenas suportar o desconforto sem entender sua origem e começar a reconhecer meus limites com mais antecedência.
Minha experiência também mudou meu olhar para os aprendizes
Viver isso do lado de quem ensina também mudou a forma como observo as crianças. Quando um aprendiz cobre os ouvidos, parece distraído, se desorganiza em um ambiente muito estimulante ou não consegue permanecer em uma atividade, tento não olhar apenas para o comportamento que aparece por fora.
Minha experiência pessoal não substitui formação, estudo ou conhecimento profissional. Mas ela me lembra, todos os dias, de fazer perguntas antes de tirar conclusões: Há estímulo demais? A instrução está clara? O ambiente está cansativo? Existe alguma necessidade sensorial envolvida? A pessoa está conseguindo organizar tudo o que está recebendo?

Uma escola inclusiva também olha para quem ensina
Quero que a minha experiência seja um ponto de partida para uma conversa maior. Existem professores, auxiliares, terapeutas e outros profissionais neurodivergentes dentro das escolas. Alguns já têm diagnóstico, outros ainda estão tentando entender o próprio funcionamento e outros simplesmente sabem que determinados ambientes lhes custam muito mais energia.
Olhar para esses profissionais não tira o foco dos alunos. Pode fortalecer o trabalho de quem passa o dia ensinando, acompanhando e cuidando. Um profissional que consegue reconhecer suas necessidades e encontra abertura para conversar sobre elas tem mais condições de construir estratégias sustentáveis para permanecer naquele ambiente.

Talvez a pergunta não precise ser apenas: “Do que este aluno precisa para aprender?” Também podemos perguntar: “Do que este profissional precisa para conseguir ensinar, acompanhar e cuidar sem passar o dia inteiro apenas tentando suportar o ambiente?” Para mim, ampliar essa pergunta também é falar de inclusão.
Quem está por trás deste relato:

Ana Rita de Mattos Marques (@diariodeumaproinclusiva) é pedagoga, psicopedagoga e professora auxiliar do Ensino Fundamental. Além da atuação profissional, Ana compartilha em seu Instagram sua vivência com educação e neurodivergência, ajudando a ampliar uma conversa que ainda recebe pouca atenção: as necessidades de quem passa todos os dias ensinando, acompanhando e cuidando.
O que você pode fazer a partir de hoje
Se no fim de um dia em sala de aula você sente que precisa de silêncio para conseguir se recuperar, talvez valha a pena começar a observar o quanto o ambiente também está consumindo a sua energia.
- Identifique quais momentos da rotina escolar costumam ser mais desgastantes para você.
- Repare nos sinais que aparecem depois de períodos com muitas conversas, interrupções e estímulos acontecendo ao mesmo tempo.
- Quando possível, encontre pequenos momentos de pausa em ambientes mais tranquilos.
- Organização e previsibilidade também podem ajudar a diminuir a quantidade de informações que você precisa processar de uma só vez.
- Em momentos de maior incômodo com o barulho, recursos de redução de ruído também podem fazer parte das estratégias usadas para tornar o ambiente mais confortável.
- E, principalmente, fale sobre isso! Quanto mais profissionais compartilham suas experiências, mais espaço criamos para falar sobre quem também precisa de acolhimento dentro da escola: quem ensina.
Você pode passar o dia ensinando, acompanhando, resolvendo problemas e dando conta de tudo e, ainda assim, terminar completamente esgotado pelo ambiente. Reconhecer o que consome a sua energia também é uma forma de encontrar maneiras mais sustentáveis de viver a rotina.
Esse conteúdo apresenta a experiência pessoal e profissional de Ana Rita de Mattos Marques. Cada pessoa pode vivenciar a neurodivergência e as sensibilidades sensoriais de maneiras diferentes. O conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação ou orientação individualizada de profissionais habilitados.
Foi justamente nesse processo de entender melhor seus próprios limites que Ana encontrou diferentes estratégias para o dia a dia. Uma delas foi o uso dos Protetores Auriculares Nebula em alguns momentos da rotina, ajudando, em sua experiência, a diminuir a intensidade de determinados sons sem se desligar do que acontece ao redor.
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